Nunca pare de sonhar
Bergamo, 28 Fevereiro de 2026
Um postcard perdido no tempo. Nem me lembro de onde parei. Precisei tirar a poeira que encobria as palavras, soterradas em meio a tantas lembranças, histórias, emoções, mas temo não encontrar as que preciso para exprimir tudo o que aconteceu nesse limbo de um ano desde o último postcard. Tantas coisas, tanta vida. Talvez “acredite”, tema de um dos últimos posts, ainda funcione bem.
Don't Stop Believin'
Se eu pudesse resumir em uma única palavra o que aprendi em 2024, seria.. ACREDITE.
Sinto que não sei mais escrever, mas preciso começar de algum lugar. Mais fácil relembrar os dias recentes antes que eles também se escondam no fundo do baú.
Outro dia fui a um concerto de piano na casa de uma cantora lírica em Milão. Uma sala repleta de artistas, paredes em um tom terroso acolhedor - que dava match perfeito com a minha calça - e um lustre tipo Fantasma da Ópera bem acima da minha cabeça. O tema do concerto era “Nello Specchio dei Sogni” (no espelho dos sonhos) e cada peça foi pensada para nos conduzir em uma viagem no universo onírico. Uma emoção única e uma honra imensa estar ali - grazie, Maria Letizia!
Entre uma música e outra, a pianista nos convidou a embarcar em um “paesaggio sonoro” (paisagem sonora) e eu fiquei maravilhada com essa expressão. Com toques suaves no piano alternados com outros mais intensos, cada nota parecia reproduzir o bater de asas dos pássaros em uma revoada. E, de olhos fechados, eu conseguia realmente imaginar a cena. Quando saí do transe da música, peguei logo o celular para anotar, pra lembrar de contar à minha avó. É o tipo de jogo de palavras que ela vai gostar de saber que existe.

Quando as luzes se acenderam após o bis final, antes de irmos embora, fomos presenteados com um pequeno exemplar de "Smorfia Napoletana” (Cabala Napolitana), criado especialmente para o concerto. Eu também não conhecia essa expressão, dessa vez cultural, que diz respeito a uma tradição popular de Napoli que associa sonhos, eventos do dia a dia e símbolos a números específicos (de 1 a 90) para jogar na loteria. Pensa no que você sonhou essa noite ou em algo que te marcou recentemente. Cada coisa ou situação tem um número associado a ela, e as pessoas antigamente iam logo cedo contar o sonho a um intérprete, que conseguia traduzir tudo nos números certos para apostar. Na dúvida, criei o hábito de consultá-lo todo dia enquanto tomo meu café da manhã.
Outro hábito que cultivo, desde que me mudei para a casa onde moro agora, é ficar parada por uns minutos perto da porta, antes de começar a trabalhar, tentando escutar a melodia do piano do vizinho de frente. Há meses a sua música me alegra em momentos surpresa ao longo do dia, frequentemente começando por volta das 9h.
Desde muito tempo nutro o sonho de aprender a tocar piano, mas, completamente negada para a música, fui sempre deixando pra depois (já até compartilhei esse desejo em outro postcard). Escutá-lo tocar, quase que diariamente, reacendeu em mim o sonho. E, em um dia em que vi a luz da sala acesa - e o silêncio reinava lá dentro -, tomei coragem de bater na porta para perguntar se ele dava aulas.
Envergonhado, ele disse que ainda é aprendiz mas faz lições semanais com uma professora do Conservatório de Verona que mora no andar de cima, e me deu seu número. Escrevi uma mensagem, mas tivemos uns desencontros. Pouco antes do Natal, ela me retornou pra gente agendar um horário. Eu estava no carro com meu namorado quando ela ligou e ele reconheceu seu nome (um sobrenome muito particular). Disse que, há uns 2 anos, em outra edição do concerto de piano que mencionei acima, em Milão, a pianista que se apresentou se chamava assim. Me perguntou se ela tinha cabelo cacheado e era baixinha. Pela foto do WhatsApp não dava pra ver. Mas no dia em que fiz a minha primeira aula, confirmei.
E assim descobri que minha vizinha do andar de cima - e agora futura professora de piano - no único prédio da rua entre tantos vinhedos em uma cidadezinha minúscula nos arredores de Verona, é a mesma pianista que meu namorado - de Bergamo - viu tocar no concerto privado - em Milão - há 2 anos. Antes da gente se conhecer. Antes de eu abraçar ele em sonho sem imaginar que um dia o abraçaria de verdade. Mas isso é história para outro postcard.
PS: Caso te interesse, o número do abraço na Smorfia Napoletana é 85. Tocar piano, 77. Concidência, 40. O que você tem sonhado?





Saudade das suas histórias. Consigo entrar nelas enquanto as leio. Adoro!!!
Da spoiler no zap pra mim desse abraço?